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Nas profundas do inferno

Sergio Britto, Trist√£o de Athayde & Jorge Amado - Outubro 2007
 

Arthur Poerner. Nas profundas do inferno. 3. ed. Rio de Janeiro: Booklink, 2007.

Nas profundas do inferno é um romance que discute e analisa a ditadura militar que assolou o Brasil. Poerner não perdoa: o livro, escrito em 1976, durante o seu exílio, e só publicado no Brasil em 1979, parece ser, mais do que os seus valores literários indiscutíveis, o primeiro romance que rompe com a alienação. Estou falando dos intelectuais que se acovardaram, se acomodaram, de todos aqueles que, quando não foram cobrados, cercados, procurados e incomodados, ficaram quietos nos seus cantos, na pior forma de alienação, uma alienação covarde. Ninguém tinha coragem de mexer com o enorme ninho de abelhas ferozes que ameaçavam a todos nós.

Poerner √© o primeiro escritor a tratar de maneira detalhada, realista e minuciosamente trabalhada dos horr√≠veis fatos do dia-a-dia daqueles terr√≠veis anos, pondo os dedos em todas as mais purulentas feridas produzidas pela infamante ditadura. As inten√ß√Ķes deste homem s√©rio, probo intelectual (uso probo para evocar uma firmeza de car√°ter que parece coisa antiga, em contraste com a falta de moral dos nossos tempos), s√£o as mais pertinentes na concep√ß√£o do livro, mas nada teria muita import√Ęncia - de boas inten√ß√Ķes, afinal, at√© o inferno est√° cheio - n√£o fosse a qualidade liter√°ria da sua dantesca descri√ß√£o do tempo em que vivemos nas profundezas do inferno.

Acredito que o livro de Poerner j√° nasceu um cl√°ssico - as v√°rias edi√ß√Ķes e o grande sucesso tamb√©m no exterior confirmam a minha percep√ß√£o.

Nas profundas do inferno é livro para a nossa mesinha de cabeceira, ou, pelo menos, livro que se guarda não na estante, mas no quarto de dormir, perto da cama, para lembrar sempre um tempo que existiu e que cabe a nós não deixar que se repita.

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Sérgio Britto é ator.

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"Grande romance, talento estilístico", de Tristão de Athayde.

Em face dos quinze anos de ditadura integral por que passamos, de 1964 a 1979, e no início de uma nova fase, que poderemos, talvez, chamar de ditadura mitigada, participação ou alienação são as duas atitudes que cercaram a primeira fase e provavelmente vão acompanhar a segunda.

Este grande romance de Arthur Poerner √© a obra liter√°ria mais dram√°tica de participa√ß√£o intelectual na luta contra a ditadura. √Č um verdadeiro resgate da d√≠vida que os intelectuais brasileiros contra√≠ram, em sua maioria, pela sua atitude em geral alienada, em face de acontecimentos que marcaram a √©poca talvez mais sombria de nossa historia p√°tria. Poerner se revela, neste seu romance autobiogr√°fico, como um dos grandes romancistas de toda a nossa hist√≥ria liter√°ria.

O crit√©rio da qualidade de um romance n√£o deve ser nunca a causa pol√≠tica, moral ou religiosa que ele acaso sustente. Nem a aus√™ncia de uma causa. O que qualifica uma obra est√©tica √© o trabalho bem feito. Mas quando esse trabalho liter√°rio bem feito √© acompanhado pela participa√ß√£o em uma causa justa, redobra o valor da obra. √Č exatamente o que encontramos neste romance singular. Digo singular, porque o livro de Poerner j√° se pode qualificar como a obra liter√°ria e social mais importante suscitada pela chamada "revolu√ß√£o de 64", que foi de fato uma contra-revolu√ß√£o. Mas a onda de sofrimentos humanos que ela despertou, sobretudo na mocidade brasileira, foi t√£o grande, que a sua hist√≥ria, contada por quem a viveu em carne viva, ficar√° como um marco intelectual indel√©vel.

Considero, pois, este romance de Arthur Poerner, junto às Cartas da prisão, de Frei Betto, como um dos dois testemunhos mais dramáticos da contraditadura e como a obra de ficção mais importante, mais patética e mais representativa desse período negro de nossa história. E, seguramente, como uma das obras clássicas de nossa história literária, como revelação pessoal de seu criador e como representação do subsolo cruel de uma era sombria. E ainda como a revelação moral e fraterna dos companheiros de ideal e de prisão, que o romancista evoca com o talento estilístico e a grandeza humana que possui.

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Este texto de Tristão de Athayde (1893-1983) foi publicado como orelha da primeira edição do romance, em 1979.

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"Romance, documento, romance", de Jorge Amado.

Ao terminar a leitura dos originais de Nas profundas do Inferno, de Arthur Jos√© Poerner, e ao tomar da m√°quina para escrever umas palavras de pref√°cio - bem in√ļtil pref√°cio, dele o livro n√£o necessita -, pensei come√ßar afirmando: estamos diante de invulgar documento sobre o nosso tempo dram√°tico e belo e sobre o sofrido espa√ßo brasileiro. N√£o, n√£o √© justo come√ßar com tal constata√ß√£o, no entanto verdadeira; justo √© come√ßar chamando a aten√ß√£o do leitor para o fato de que estamos diante de um romance, um invulgar romance, mat√©ria ficcional e liter√°ria de alta qualidade. Primeiro o romance, depois o documento, esta a ordem certa dos valores.

O que nos coloca de logo diante dos problemas resultantes da constru√ß√£o de uma literatura de intenso comprometimento pol√≠tico. Literatura engajada na explana√ß√£o de um quadro de opress√£o e luta e na den√ļncia imediata de uma situa√ß√£o que afeta nossa pr√≥pria condi√ß√£o brasileira, t√£o duramente conquistada atrav√©s da originalidade de nossa forma√ß√£o, da evolu√ß√£o do povo para se constituir em na√ß√£o com face pr√≥pria, pac√≠fica, cordial, despreconceituosa, amor√°vel. Valores todos eles amea√ßados pela estrutura atual da vida pol√≠tica nacional.

Estamos fartos de constatar, e fazer que n√£o constatamos, a pobreza e a estreiteza da maior parte das obras de fic√ß√£o que se pretendem testemunhas do drama pol√≠tico atual, no Brasil e no mundo. Quase sempre, os autores s√£o dominados pelo imediatismo e pelo circunstancial, pela necessidade de n√£o deixar d√ļvidas no esp√≠rito do leitor, pelo desejo de impor certas regras morais, determinados conceitos ideol√≥gicos ao tratamento romanesco, resultando de tudo isso e do sectarismo esterilizador e bronco um discurso talvez √ļtil em com√≠cio, mas evidentemente distante da cria√ß√£o liter√°ria propriamente dita.

Em tais livros, pululam personagens em branco e preto, os positivos e os negativos, mocinhos perfeitos, vil√Ķes monstruosos. Sei que na vida existem os perfeitos - felizmente - e, em muito maior n√ļmero, os monstruosos - infelizmente. Mas que literatura chata e ineficiente resulta de tais dogmas! Quando n√£o s√£o os livros deles nascidos - os livros e o teatro, o cinema, certa m√ļsica dita popular brasileira e que nada tem nem de popular nem de brasileira - elitistas ao extremo, quando se pretendem extremamente revolucion√°rios.

Distante de tudo isso se coloca o romance de Arthur Jos√© Poerner e, por conseq√ľ√™ncia, vale como bom exemplo do que deve ser a literatura voltada para a realidade eminentemente pol√≠tica, fazendo dela a massa, o barro, o cerne de sua constru√ß√£o. Romance, antes de tudo. Quando os elementos ocasionais tratados no livro j√° houverem desaparecido e recordarem apenas um contexto hist√≥rico, Nas profundas do inferno permanecer√° n√£o somente nas p√°ginas da hist√≥ria da literatura, mas tamb√©m nas montras das livrarias, no interesse dos leitores, por ser de carne e sangue a paix√£o pol√≠tica que lhe d√° o sopro de vida imortal. Homens e mulheres vivos, ardentes, complexos, por vezes contradit√≥rios, despidos ante o leitor. Muitos deles despidos n√£o apenas psicologicamente, tamb√©m de fato, pois, nas celas infames, os carrascos os deixam nus no cimento frio, na sujeira e na fedentina.

O romance √© fundamentalmente a hist√≥ria de Jos√© da Mangueira, o levantamento de sua figura de homem, partindo de sua pris√£o por motivos pol√≠ticos. O perfil de Jos√© da Mangueira √© tra√ßado de dois √Ęngulos de vis√£o diferentes: seu di√°rio de pris√£o e o texto escrito por um companheiro de cela, o "estudante de ling√ľ√≠stica". Acrescidos, di√°rio e texto, de mais uns poucos documentos: not√≠cias de jornais, cap√≠tulo de uma antiga novela de Mangueira (sua pris√£o deve-se n√£o apenas √† sua atividade pol√≠tica, tamb√©m √† literatura, por ter numa novela colocado a esposa de um "not√°vel do regime" na cama de um de seus guarda-costas), opini√Ķes a prop√≥sito da a√ß√£o policial, um requerimento da esposa de Mangueira, etc.

Da soma de todos esses elementos surge a figura de um brasileiro t√≠pico, com as nossas virtudes e os nossos defeitos, onde os tra√ßos marcantes da fibra e da dignidade do lutador mesclam-se, harmoniosamente, a denso sensualismo e a um certo senso de humor bem nacionais; essa capacidade que possu√≠mos, gra√ßas √† mesti√ßagem, de superar os piores momentos sem cair no melodram√°tico. Eis a√≠ exatamente uma virtude do romance de Poerner: dram√°tico, jamais melodram√°tico (n√£o que eu tenha nada contra o melodram√°tico, t√£o freq√ľente no quotidiano da vida; apenas n√≥s, brasileiros, n√£o somos melodram√°ticos como o s√£o, por exemplo, os portugueses).

Ficamos conhecendo a inf√Ęncia de Jos√© da Mangueira, rica de descobertas que v√£o das primeiras no√ß√Ķes sexuais aos mist√©rios da umbanda, a adolesc√™ncia, sua vida estudantil, jornal√≠stica e pol√≠tica, seus h√°bitos e prefer√™ncias, e, ao mesmo tempo, seu comportamento na pris√£o - o homem √© constru√≠do diante do leitor. Sobretudo na primeira parte, onde a narrativa √© mais rica e forte, com certeza por ser feita em primeira pessoa pelo pr√≥prio her√≥i (ou anti-her√≥i? - como prefiram), criatura expansiva, aberta, enquanto o texto do estudante de ling√ľ√≠stica (ou letras, conforme ele esclarece) √© marcado pelo intelectualismo um tanto ou quanto pedante do colega de cadeia a quem Mangueira confiou seu manuscrito; por vezes o estudante nos d√° a impress√£o de ser um desses "cr√≠ticos universit√°rios" atualmente t√£o em voga, cheios de si e vazios de conte√ļdo.Em troca, o texto do estudante nos gratifica com dois belos perfis de mulher: o de Guaraciara, companheira de Mangueira, e o de Rosita, figura rom√Ęntica e poderosa. Rom√Ęntica e poderosa igualmente, outra mulher, Let√≠cia, situada sempre num segundo plano, mas de inesquec√≠vel presen√ßa, creio eu.

Um livro povoado de gente, parentes de Mangueira, sua tia simp√°tica, seu tio reacion√°rio, os caboclos e negros velhos da umbanda, os policiais, a figura de Natalino a colocar um gr√£o de humanidade naquela t√©trica galeria de torturadores, os presos - a dura e doce face de Vov√ī Catarino. Povoado de acontecimentos, de vida vivida, vida do Rio de Janeiro, tudo aquilo que faz parte do mundo de Jos√© da Mangueira, um brasileiro atirado um dia √†s profundas do inferno.

Por vezes, o excelente ensa√≠sta que √© Poerner amea√ßa passar o romancista para tr√°s, mas n√£o consegue, a a√ß√£o supera o discurso ou a explana√ß√£o did√°tica, Mangueira vence o estudante de ling√ľ√≠stica.

Gostaria de usar para definir este livro, que √© um impressionante documento e um romance de estr√©ia fora do comum, pela madura voca√ß√£o do ficcionista e pela l√≠mpida qualidade liter√°ria, uma palavra hoje de pouco uso, pois vivemos num tempo que n√£o a comporta quase: humanismo. O livro de um humanista, romance, documento, sempre romance, uma l√Ęmpada acesa na escurid√£o.

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Este texto de Jorge Amado (1912-2001) foi publicado como prefácio da primeira edição do romance.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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