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Amor e revolução

Antonio Gramsci Jr. - Dezembro 2007
Tradução: Josimar Teixeira
 

O texto abaixo foi publicado originalmente em L’Unità, em 17 de dezembro de 2007. Antonio Gramsci Jr. é filho de Giuliano e Zina (uma russa), e, portanto, neto de Antonio e Giulia. Sobre o recente falecimento de Giuliano e outros episódios relativos à família da mulher de Gramsci, ver, do mesmo autor, Sobre a família Schucht em Moscou.  

Sempre que passo perto do Mausoléu de Lenin, tento acelerar os passos e me afastar o mais rapidamente possível. Nunca na minha vida consegui controlar um sentimento de asco e horror, ao ver como - exposto aos olhares impiedosamente curiosos - jazem os restos de quem, antigamente, era o querido amigo da nossa família.

Tudo come√ßou no distante ano de 1887, quando, na penitenci√°ria de Petersburgo, encontraram-se duas mulheres, Otillia Winterschalter e Maria Ulianova. A primeira era m√£e de Apollon Schucht, meu bisav√ī. A segunda, de Aleksandr Ulianov, irm√£o de Vladimir, futuro Lenin. Os dois jovens revolucion√°rios presos estavam estreitamente ligados √† Narodnaia Volia [Vontade do povo], mas seu comprometimento nesta organiza√ß√£o subversiva era diferente. Aleksandr pertencia √† ala terrorista, que, entre outras coisas, preparava o atentado contra o czar Alexandre III. Apollon se ocupava da propaganda marxista nos c√≠rculos revolucion√°rios militares, √† cuja forma√ß√£o se dedicou no in√≠cio dos anos anos 1880, durante os estudos no col√©gio militar.

O próprio Apollon descreve muito claramente o objetivo destes círculos nas suas memórias: "Como, depois de 1881, a Narodnaia Volia não podia seguir o mesmo caminho (naquele ano foi assassinado o czar Alexandre II, e depois disso o governo desencadeou a represália contra os revolucionários), todos os que queriam continuar a luta começaram a buscar outras vias. Uma delas consistia na busca das pessoas certas entre os quadros militares. Depois da sua preparação adequada, podia-se esperar que, no momento certo (a revolução), apoiariam nossa causa [...]".

Depois do processo sumário, Aleksandr foi enforcado; Apollon, em vez disso, foi condenado ao exílio na Sibéria, até onde o seguiram a mulher Giulia [o mesmo nome da filha que se casaria com Gramsci] e duas filhas. Depois de três anos de exílio, a família se mudou para Samara, uma belíssima cidade à margem do Volga, na qual já morava Vladimir Ulianov com sua mãe e irmãs. Logo nasceu uma amizade calorosa entre as duas famílias.

Em 1893, os Schuchts emigraram, mas n√£o perderam o contato com os Ulianovs. Lenin muitas vezes ia encontrar Apollon na Su√≠√ßa. Via crescer minha av√≥ Giulia e suas irm√£s. De uma destas, Asia, at√© tinha sido o padrinho. A irm√£ mais velha de Giulia, Eugenia, talvez "a mais bolchevique de toda a fam√≠lia", lembra nas suas bel√≠ssimas mem√≥rias as travessuras infantis do "tio Vladimir" durante a festa nacional em Genebra, em 1905. Esta imagem de Lenin, fantasiado de urso, a jogar confetes sobre as crian√ßas e a faz√™-las estourar de rir, n√£o corresponde √†quela outra, descoberta nas "nov√≠ssimas investiga√ß√Ķes" dos nossos bravos historiadores, de uma pessoa l√ļgubre e completamente destitu√≠da de senso de humor.

Em 1916, provavelmente a pedido de Lenin, Apollon voltou √† R√ļssia. Sendo um excelente administrador, tornou-se o respons√°vel pelas contas da se√ß√£o moscovita do Partido. Logo depois da revolu√ß√£o, Lenin nomeou-o comiss√°rio respons√°vel pela nacionaliza√ß√£o dos bancos. E o pr√≥prio Apollon recorda que "a todos os empregados que concordaram em colaborar com as novas autoridades foram concedidas as mesmas fun√ß√Ķes que tinham antes". √Ä diferen√ßa de Stalin, Lenin sempre tratava com o m√°ximo respeito os velhos especialistas dispostos a colaborar.

Em 1919, Lenin escreveu a carta de recomenda√ß√£o para que Eugenia Schucht se inscrevesse no Partido. Em seguida, tornou-se secret√°ria de Krupskaia no Comissariado (Minist√©rio) da Instru√ß√£o Popular. Depois da morte de Lenin, Apollon e Eugenia mantiveram rela√ß√Ķes com as irm√£s dele, sobretudo Anna Ulianova, que freq√ľentemente ajudava os Schuchts nos momentos dif√≠ceis. Com Anna, Eugenia come√ßou a traduzir as obras de Lenin em italiano. Nos anos 1930, quando Stalin se livrou de quase todos os amigos de Lenin, a fam√≠lia Schucht, ao contr√°rio, foi poupada, provavelmente gra√ßas ao parentesco com Antonio Gramsci (o tratamento da fam√≠lia Schucht por parte de Stalin √© examinado no livro de Giuseppe Vacca e Angelo Rossi, Gramsci tra Mussolini e Stalin).

Tamb√©m Antonio Gramsci, meu av√ī, p√īde conhecer Lenin pessoalmente. Estranhamente, este fato da vida de Gramsci parece n√£o ser do conhecimento dos seus bi√≥grafos italianos. A not√≠cia sobre o encontro deles, no entanto, encontra-se num volume de artigos biogr√°ficos sobre Lenin. Naquela √©poca, n√£o obstante a grave doen√ßa, Lenin seguia com aten√ß√£o os acontecimentos italianos e n√£o renunciava a alguns di√°logos sobre quest√Ķes internacionais de que desejava informa√ß√Ķes diretas por parte dos companheiros por ele particularmente estimados.

Seguramente, n√£o lhe p√īde escapar o fato de que Gramsci conhecera seus velhos amigos Schuchts. O encontro aconteceu em 25 de novembro de 1922, √†s 18h, no escrit√≥rio de Lenin no Kremlin. Sobre este encontro, temos um outro testemunho importante referido na carta de Camilla Ravera ao meu pai Giuliano:

"Caro Giuliano, acerca do encontro de Gramsci com Lenin, que voc√™ menciona e sobre o qual quer alguns detalhes, n√£o posso lhe dizer muita coisa. Gramsci se referiu muitas vezes √†quele encontro durante as longas conversas que tive com ele durante minha perman√™ncia em Moscou, mas sempre mencionando-o em rela√ß√£o √†s quest√Ķes pol√≠ticas das quais naquele momento particularmente nos ocup√°vamos. N√£o lembro, por exemplo, se me disse a data precisa do encontro ou outros detalhes acerca do lugar e do modo, que devem ter sido semelhantes aos do encontro que eu e Bordiga tivemos com Lenin nos primeiros dias de novembro [...]. Durante nossas conversas Gramsci me disse ter expresso a Lenin sua profunda diverg√™ncia com Bordiga, n√£o s√≥ acerca do problema das rela√ß√Ķes com o Partido Socialista, mas tamb√©m do ju√≠zo sobre o fascismo, a situa√ß√£o italiana, suas perspectivas [...]. ¬ĎLenin - dizia-me Gramsci - conhece nossas quest√Ķes muito mais do que supomos...¬í Lenin quis conhecer diretamente o pensamento de Bordiga sobre os novos acontecimentos italianos [...]. Escutou com evidente surpresa suas opini√Ķes, r√≠gidas e abstratas (no entanto, dois anos antes Lenin ratificara a ruptura √† esquerda pensada por Bordiga) [...]. Talvez, a partir daquela conversa tida com Gramsci e da que se seguiu com Bordiga, possa ter derivado - em Lenin e na Internacional - a decis√£o, tomada logo a seguir, de que Gramsci n√£o deveria retornar √† It√°lia, mas se reaproximar do Partido, transferindo-se para Viena, com um escrit√≥rio pr√≥prio, e l√° retomasse a publica√ß√£o da revista L¬íOrdine Nuovo, bem como aquele trabalho com os companheiros que - desenvolvido a seguir na a√ß√£o pol√≠tica na It√°lia - levaria √† supera√ß√£o do bordiguismo [...]".

Podemos supor a partir deste testemunho que Lenin - com sua intuição infalível, dando mais razão a Gramsci - decidiu promovê-lo a líder do Partido Comunista Italiano.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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