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A gênese do Capital, segundo Rosdolsky

Carlos Nelson Coutinho - 2001
 

Roman Rosdolsky. Gênese e estrutura de ''O Capital'' de Karl Marx. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001. 624p.

Quando morreu, em 1883, Marx havia publicado apenas uma parte relativamente ex√≠gua de sua enorme produ√ß√£o te√≥rica. Se deixarmos de lado sua vasta e dispersa atividade como jornalista, dispunha-se apenas (e, em muitos casos, somente em bibliotecas de dif√≠cil acesso, j√° que os livros estavam h√° muito esgotados) de A sagrada fam√≠lia (1845), A mis√©ria da filosofia (1847), O Manifesto Comunista (1848), Contribui√ß√£o √† cr√≠tica da economia pol√≠tica (1859), do Livro I de O capital (1867) e de alguns op√ļsculos econ√īmicos e pol√≠ticos. Necessitou-se de quase um s√©culo para que a obra completa de Marx se tornasse finalmente dispon√≠vel. Ainda no s√©culo XIX, Engels editou os Livros II e III de O Capital. Na primeira d√©cada do s√©culo XX, Karl Kautsky tornou dispon√≠veis os tr√™s volumes de Teorias da mais-valia, tamb√©m conhecido como o Livro IV de sua obra-prima. No in√≠cio dos anos 30, vieram √† luz os Manuscritos econ√īmico-filos√≥ficos de 1844 e a seminal A ideologia alem√£, escrita em colabora√ß√£o com Engels, em 1845. A publica√ß√£o de todos estes in√©ditos ampliou grandemente o campo do que se passou doravante a entender como "marxismo", favorecendo ademais a emerg√™ncia de diferentes escolas de interpreta√ß√£o do pensamento de Marx. Assim, quando hoje nos referimos a "marxismo", certamente designamos um universo conceitual bem mais rico e polim√≥rfico do que aquele que era defendido pelos marxistas do final do s√©culo XIX e das primeiras d√©cadas do s√©culo XX.

Também permaneceu inédita, em particular, pelo menos até a segunda metade do século XX, uma enorme massa de manuscritos que formam as várias tentativas de Marx no sentido de elaborar a obra teórica a que dedicou seus melhores esforços, ou seja, sua "crítica da economia política", finalmente intitulada O Capital. Tão logo se convenceu, depois da derrota da revolução européia de 1848, de que o movimento revolucionário entrara em refluxo, Marx afastou-se temporariamente de sua atividade política e dedicou-se quase integralmente, de 1851 até o fim da sua vida, a compilar o material necessário à redação daquela que viria a ser sua indiscutível obra-prima, que ele julgava um empreendimento absolutamente necessário para dar base teórica ao movimento operário e comunista ao qual aderira com o coração e a mente.

Depois de anos de estudos na biblioteca do Museu Brit√Ęnico, quando se assenhora do essencial da literatura econ√īmica at√© ent√£o existente, Marx finalmente inicia e completa, entre 1857 e 1858, a primeira reda√ß√£o de sua "cr√≠tica da economia pol√≠tica". Uma parte deste manuscrito foi utilizada, em 1859, em Contribui√ß√£o √† cr√≠tica da economia pol√≠tica, que trata da mercadoria e do dinheiro. Entre 1861 e 1863, Marx redige uma nova vers√£o da sua "Economia", que permaneceu in√©dita at√© os anos 80 do s√©culo XX. Uma terceira vers√£o √© elaborada entre 1863 e 1865, formando a base n√£o s√≥ do Livro I de O Capital, √ļnico publicado em vida de Marx, mas tamb√©m do Livro III e das Teorias da mais-valia, publicados respectivamente por Engels e por Kautsky.

Dentre tais manuscritos "econ√īmicos" publicados postumamente, o mais famoso √© certamente aquele de 1857-1858, que os editores - com base numa indica√ß√£o do pr√≥prio Marx - intitularam Grundrisse der Kritik der politischen √Ėkonomie, ou seja, Elementos fundamentais para a cr√≠tica da economia pol√≠tica, conhecidos simplesmente como Grundrisse. Neste manuscrito, com cerca de mil p√°ginas, Marx aborda pela primeira vez, praticamente em sua integralidade, os temas que, mais tarde, iriam constituir os Livros I e II de O Capital, que tratam dos processos de produ√ß√£o e de circula√ß√£o do capital. A primeira edi√ß√£o deste manuscrito apareceu em Moscou, em dois volumes, em 1939 e 1940, em seu original alem√£o. Em fun√ß√£o do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial, esta primeira edi√ß√£o teve escasss√≠ssima divulga√ß√£o no Ocidente. Somente em 1953, os Grundrisse foram reeditados na ex-Alemanha Oriental, passando ent√£o a despertar o interesse de estudiosos marxistas e n√£o marxistas.

Por puro acaso, por√©m, um destes estudiosos p√īde tomar conhecimento da obra j√° em 1948. Com efeito, Roman Rosdolsky - um polon√™s estudioso de Marx e militante trotsquista, perseguido pelo nazismo e pelo stalinismo, ent√£o vivendo nos Estados Unidos, onde morreu em 1967 - tomou conhecimento, numa biblioteca universit√°ria norte-americana, de um dos poucos exemplares da edi√ß√£o sovi√©tica dos Grundrisse que chegara ao Ocidente. Como ele mesmo nos diz, imediatamente se deu conta da import√Ęncia do livro para o pleno conhecimento das principais categorias da cr√≠tica marxiana da economia pol√≠tica. Dedicou ao exame dos Grundrisse o resto da sua vida, do que resultou este magn√≠fico G√™nese e estrutura de "O Capital" de Marx, que Rosdolsky n√£o teve a alegria de ver publicado. O livro foi editado em alem√£o em 1968, um ano ap√≥s sua morte.

Entre os temas principais a que se dedica Rosdolsky, em G√™nese e estrutura, est√° precisamente o exame das raz√Ķes por que Marx alterou o plano de sua "Economia" esbo√ßado na √©poca dos Grundrisse, o que o levou a abandonar essa primeira vers√£o de sua obra e a empreender a reda√ß√£o de uma (na verdade, de duas) novas vers√Ķes. Para Rosdolsky, essas raz√Ķes n√£o se referem tanto ao abandono das descobertas te√≥ricas de 1857-58, mas sobretudo ao fato de que Marx se deu conta, work in progress, de que o adequado tratamento do material demandava uma nova forma de exposi√ß√£o, mais aderente √† l√≥gica dial√©tica que Marx herdara de Hegel e que, com as necess√°rias invers√Ķes materialistas, constitui a espinha dorsal do m√©todo que utiliza em todos os seus trabalhos, em particular na sua "cr√≠tica da economia pol√≠tica". Marx buscava essa maior ader√™ncia √† dial√©tica porque, para ele, isso significava uma maior ader√™ncia tamb√©m ao real, em suas m√ļltiplas e complexas determina√ß√Ķes.

A aten√ß√£o dedicada ao tema do m√©todo √© um dos principais m√©ritos do livro de Rosdolsky. Referindo-se com freq√ľ√™ncia a Luk√°cs, o autor de G√™nese e estrutura mostra que as reflex√Ķes econ√īmicas de Marx n√£o pertencem ao dom√≠nio da "ci√™ncia econ√īmica" de tipo positivista. Para ele, isso resulta do fato de que Marx adota o ponto de vista da totalidade j√° presente na dial√©tica de Hegel: todos os fatos econ√īmicos tratados por Marx s√£o submetidos ao crivo da historicidade e da totalidade, o que lhe permite tratar o capital como rela√ß√£o social (e n√£o como "coisa") e como fato hist√≥rico (e n√£o como algo "natural" ou eterno). √Č precisamente isto o que distingue Marx dos economistas cl√°ssicos (Smith, Ricardo), dos quais herda as principais categorias. Rosdolsky busca demonstrar como o m√©todo e a tessitura expositiva da cr√≠tica marxiana da economia t√™m como base as categorias de "abstrato" e "concreto", de "imediaticidade" e "media√ß√£o", de "ess√™ncia" e "apar√™ncia", de "em si" e "para si", etc., categorias que certamente t√™m origem na dial√©tica hegeliana.

Mas a maior parte da obra de Rosdolsky √© dedicada precisamente ao exame das categorias econ√īmicas (dinheiro, capital, mais-valia, lucro e juros, etc.) tais como aparecem nos Grundrisse. O objetivo de Rosdolsky √© mostrar como esse primeiro exame de tais categorias por Marx √© decisivo para entender o modo como elas s√£o reelaboradas na vers√£o definitiva de O capital, onde aparecem certamente em sua forma mais madura. √Č m√©rito de Rosdolsky deixar claro o seguinte: embora o estudo dos Grundrisse seja absolutamente necess√°rio para entender plenamente O capital, √© nesta √ļltima obra que Marx atinge o ponto mais elevado de sua elabora√ß√£o te√≥rica. Por isso, no original alem√£o, seu livro intitula-se Zur Entstehungsgeschichte des Marxshen Kapitals, ou seja, mais ou menos literalmente, Para a hist√≥ria da g√™nese de "O Capital" de Marx. Talvez a √ļnica cr√≠tica que se possa fazer a esta bela edi√ß√£o brasileira do livro de Rosdolsky, brilhantemente traduzido por C√©sar Benjamin, √© ter adotado o t√≠tulo j√° empregado nas edi√ß√Ķes italiana e espanhola da obra, ou seja, G√™nese e estrutura de "O Capital" de Marx, ao contr√°rio das edi√ß√Ķes francesa e inglesa, que mant√™m o t√≠tulo original. O t√≠tulo usado na edi√ß√£o brasileira pode dar a falsa impress√£o de que o livro √© dedicado n√£o aos Grundrisse, mas a O capital, ou seja, n√£o ao momento da g√™nese das categorias, mas ao da sua consolida√ß√£o.

√Č pena que uma das mais l√ļcidas leituras dos Grundrisse at√© hoje escrita chegue √† nossa l√≠ngua antes de que o leitor brasileiro possa desfrutar de uma edi√ß√£o em portugu√™s dos pr√≥prios Grundrisse. Dispomos j√°, em nosso idioma, de uma boa parte da obra de Marx, inclusive de duas boas tradu√ß√Ķes de O capital e de uma das Teorias da mais-valia. √Č de se esperar que a edi√ß√£o brasileira do excepcional livro de Rosdolsky seja um incentivo para que essa lacuna venha a ser rapidamente suprida. Mas tamb√©m, sobretudo, para que se tenha mais uma ocasi√£o de estudar Marx e de constatar assim que, sem a extraordin√°ria produ√ß√£o te√≥rica do autor do Manifesto do Partido Comunista, n√£o √© poss√≠vel entender plenamente o nosso tempo. Afinal, vigora ainda hoje - e certamente como nunca - o modo de produ√ß√£o capitalista que Marx t√£o argutamente analisou e combateu.

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Carlos Nelson Coutinho é professor titular da UFRJ.



Fonte: Jornal do Brasil. Idéias, 22 dez.2001,p.4

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