Busca:     


O Liberal e eu

L√ļcio Fl√°vio Pinto - Outubro 2008
 

Num momento em que tanto se discute o papel da m√≠dia - discuss√£o sem d√ļvida necess√°ria no nosso pa√≠s, ainda que muitas vezes n√£o se consiga passar do terreno da mera den√ļncia para o das a√ß√Ķes positivas -, L√ļcio Fl√°vio Pinto, em Bel√©m, h√° mais de duas d√©cadas faz uma cr√≠tica concreta e uma a√ß√£o contundente, com seu¬†bravo e inc√īmodo Jornal Pessoal, sempre a desafiar poderes e discursos dominantes. Reposit√≥rios de substanciosa informa√ß√£o sobre toda a regi√£o amaz√īnica, L√ļcio Fl√°vio e o JP exemplificam vivamente o fato de que o jornalismo independente - e a pr√≥pria luta democr√°tica, na variedade das suas manifesta√ß√Ķes¬†- n√£o s√£o tarefas indolores, isentas de risco e atribula√ß√Ķes de toda ordem. Muito pelo contr√°rio. Por se afastar da abstrata e gen√©rica declara√ß√£o de boas inten√ß√Ķes, toda e qualquer iniciativa democr√°tica tem pela frente advers√°rios reais, com recursos materiais e simb√≥licos abundantes. E √© exatamente isso o que nos prova, mais uma vez, o relato abaixo, que fazemos quest√£o de divulgar como forma de total solidariedade ao jornalista paraense e cidad√£o do mundo. E, al√©m disso, velho amigo e colaborador deste s√≠tio (Nota de Gramsci e o Brasil).

Decidi passar a limpo minha rela√ß√£o com o grupo Liberal e espero que o distinto p√ļblico aceite participar da tarefa. Neste m√™s de setembro a persegui√ß√£o que sofro por parte dos Maiorana completou 16 anos. Justamente neste m√™s acabou a relativa folga que vinha tendo e voltei a ser absorvido pela acidentada movimenta√ß√£o dos processos. A edi√ß√£o deste jornal foi muito prejudicada outra vez: atrasou por alguns dias e deixar√° de abordar quest√Ķes que a atualidade lhe impunha.

A primeira a√ß√£o foi proposta contra mim por Ros√Ęngela Maiorana Kzan, em setembro de 1992. Ela ajuizou outras quatro a√ß√Ķes sucessivas. No total, quatro demandas penais, com base na Lei de Imprensa, de 1967, e uma c√≠vel. Era tudo e j√° n√£o era pouco (a c√≠vel continua a tramitar por Bras√≠lia como uma alma penada do mundo jur√≠dico). At√© que Ronaldo Maiorana me agrediu fisicamente, em 21 de janeiro de 2005, com a cobertura de dois policiais militares travestidos de capangas (e promovidos pela corpora√ß√£o depois dessa vilania). A√≠ vieram mais 14 processos, cujo prop√≥sito era n√≠tido: inverter os p√≥los da situa√ß√£o. De v√≠tima, esperavam me transformar em r√©u e algoz.

Entre os dias 11 e 14 de setembro eu devia estar na Noruega, participando do maior encontro sobre jornalismo investigativo global j√° realizado at√© hoje (a pauta das atividades talvez ainda possa ser vista no endere√ßo http://www.gijc2008.no/program/schedule/173). Era o √ļnico convidado brasileiro. Devia encerrar o semin√°rio com minha apresenta√ß√£o. Por causa do interesse pela Amaz√īnia, √ļnico tema brasileiro no encontro, gravei um v√≠deo para ser exibido e escrevi um texto para ser lido na ocasi√£o. Assim marquei presen√ßa, em nome de uma das regi√Ķes do planeta que mais interesses suscita neste nosso mundo globalizado.

N√£o pude ir a Oslo porque tinha audi√™ncia em Bel√©m, num dos quatro processos de indeniza√ß√£o por danos materiais e morais que os irm√£os Ronaldo e Romulo Maiorana J√ļnior propuseram contra mim depois da agress√£o, sem poder disfar√ßar a emula√ß√£o mais do que evidente. Como este jornal tem feito cr√≠ticas duras aos ve√≠culos de comunica√ß√£o dirigidos pelos dois, o torniquete judicial √© apertado (embora nenhuma palavra eles se disponham a dizer sobre o conte√ļdo das cr√≠ticas que lhes fa√ßo). Sufocado e atado, perco o direito de dispor sobre o meu trabalho e a minha vida. Meus danos e preju√≠zos s√£o profundos, mas sempre sobra alguma perda para a sociedade, privada de um jornalismo que podia ser mais intenso e produtivo.

Escrevo muito sobre o grupo Liberal. Este √© um fato, que v√°rias pessoas consideram negativo. Dizem que minhas cr√≠ticas s√£o repres√°lias porque sa√≠ do grupo. Diante de uma ju√≠za, em plena audi√™ncia de instru√ß√£o, Ros√Ęngela Maiorana chegou a dizer que fui expulso, por ter desmerecido a confian√ßa do seu pai, o fundador do imp√©rio. A hist√≥ria √© outra e est√° √† m√£o para quem for consultar os arquivos de jornais. Contraditei a herdeira juntando aos autos um bilhete de Romulo Maiorana, me autorizando a decidir em seu nome sobre a cobertura que O Liberal vinha dando, em 1984, ao final da constru√ß√£o da primeira etapa da hidrel√©trica de Tucuru√≠, a maior obra p√ļblica da hist√≥ria da Amaz√īnia e das maiores do pa√≠s.

Ninguém poderá escrever sobre a usina sem consultar o jornal entre a segunda metade da década de 70 e os anos 80, com destaque para o período 1982-85. Ao voltar dos Estados Unidos, em abril de 1984, dediquei quase integralmente minha coluna diária ao acompanhamento crítico do fechamento da barragem e o enchimento do reservatório. Incomodada, a diretoria da Eletronorte veio de Brasília para uma reunião no gabinete de Romulo no jornal. Ele me chamou e disse para todos que o entendimento tinha que ser feito comigo. Ele não me impediria de escrever o que eu quisesse. Deixei de escrever todos os dias sobre Tucuruí para não levar à estafa Maurício Esteves Coelho, assessor de imprensa da Eletronorte, obrigado a escrever respostas aos meus artigos todos os dias. Passei a dedicar ao tema três ou quatro matérias por semana, até a inauguração, em setembro de 1984.

N√£o vou fazer um invent√°rio do meu relacionamento pessoal e profissional com Romulo Maiorana entre 1973 e 1986, quando ele morreu. √Č tarefa para outro momento, no que servir √† hist√≥ria da imprensa paraense. S√≥ quero assinalar que minhas rela√ß√Ķes com a fam√≠lia foram interrompidas quando reagi √† censura feita a um dos meus artigos (determinada a partir do Rio de Janeiro por Romulo, que estava muito doente) e pedi demiss√£o, depois de uma discuss√£o dur√≠ssima com o patr√£o. Essas rela√ß√Ķes foram restabelecidas num plano superior. Nunca mais voltei a ser funcion√°rio da corpora√ß√£o, mas continuei a colaborar com o jornal e a televis√£o.

A primeira edi√ß√£o do JP, conforme j√° disse in√ļmeras vezes, foi impressa nas oficinas de O Liberal, numa tiragem recorde (de cinco mil exemplares), que recebi de gra√ßa, por decis√£o de Ros√Ęngela. Ela ficou impressionada com minha reportagem sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles de Lima. Como n√£o concordou em public√°-la em seu pr√≥prio jornal, aceitou mandar rodar na gr√°fica de O Liberal o jornal que eu, na hora, decidi criar para tornar p√ļblicas as informa√ß√Ķes reunidas sobre o crime, depois de tr√™s meses de investiga√ß√£o. Foi um gesto generoso dela e era tamb√©m uma retribui√ß√£o: escrevi todo o caderno especial do primeiro anivers√°rio da morte de Romulo, a pedido dela, e nada cobrei.

O segundo n√ļmero do Jornal Pessoal n√£o p√īde mais ser impresso em O Liberal, mesmo eu atendendo ao pedido de Ros√Ęngela de n√£o indicar o nome da gr√°fica: a mat√©ria principal denunciava um desfalque milion√°rio no Banco da Amaz√īnia, comandado por seu presidente interino, que tamb√©m era diretor jur√≠dico do jornal da fam√≠lia Maiorana. N√£o houve problema: entendi a raz√£o da empresa. Mas j√° sabia que nossos caminhos seriam n√£o s√≥ cada vez mais distintos: acabariam colidindo.

O grupo Liberal retomou um projeto de poder, partilhado com o ent√£o governador H√©lio Gueiros: fazer do m√©dico Henry Kayath, amigo da casa, o sucessor de Gueiros, e marginalizar Jader Barbalho, que pretendia voltar ao governo e tinha um projeto que se chocava com os neg√≥cios dos Maiorana. Revelar a verdade dessa disputa, em grande medida travada nos bastidores, para evitar o conhecimento p√ļblico e preservar os segredos, significava contrariar os interesses do cons√≥rcio Gueiros-Maiorana.

Era imposs√≠vel fazer jornalismo independente sem provocar esse conflito. O grupo Liberal se tornara a maior fonte de poder no Estado, por monopolizar a comunica√ß√£o de massa. Seus propriet√°rios expandiam seus neg√≥cios e impunham sua vontade, exigindo apoio, toler√Ęncia e subservi√™ncia. Era preciso mostrar quem eram os poderosos de fato, que exerciam seu poder pessoal plenipotenci√°rio √† margem dos poderes institucionais, criando uma distor√ß√£o perigosa na regula√ß√£o da vida p√ļblica no Par√°. Quando revelei as dissens√Ķes internas na corpora√ß√£o e o atrito em sua c√ļpula, entre Rominho e Loloca, comecei a pagar o pre√ßo dessa ousadia.

√Č interessante observar que, embora mais atingido, o principal executivo reagiu com serenidade √†s mat√©rias que este jornal publicou em 1992 sobre suas rusgas com a irm√£, diretora administrativa de Delta Publicidade, respons√°vel pelo jornal. Essas diverg√™ncias j√° eram t√£o acentuadas que um ano e meio antes, em 9 de abril de 1991, Rominho mandou uma carta para a m√£e pedindo seu afastamento de todos os cargos que exercia no conglomerado. Dizia que sua iniciativa era estritamente pessoal, sem rela√ß√£o com qualquer diretor ou funcion√°rio do sistema. A refer√™ncia a esse detalhe teve efeito inverso ao do declarado. D√©a Maiorana respondeu devolvendo a carta e pedindo para o filho "voltar para seu lugar". A partir da√≠, o poder de Romulo Jr. s√≥ fez crescer.

Diante do notici√°rio do Jornal Pessoal, Ros√Ęngela foi implac√°vel, talvez por esperar que eu ficasse ao lado dela e contra o irm√£o. Da√≠ as a√ß√Ķes, patrocinadas por seu marido, o advogado Calilo Kzan. Numa delas, pretendiam o absurdo: que a justi√ßa me impusesse a censura pr√©via para impedir que eu voltasse a me referir a Ros√Ęngela, por qualquer motivo. N√£o por acaso, foi a √ļnica que n√£o conseguiu decis√£o favor√°vel junto a magistrados sempre dispostos a levantar a venda do julgamento imparcial para ver quem √© que solicita seus servi√ßos. Dando a senten√ßa conforme a qualifica√ß√£o do requerente.

Essa boa vontade excessiva e tendenciosa mostrou qual era o caminho das pedras aos poderosos, contrariados pelo material deste jornal: recorrer de pronto √† justi√ßa. Os autores dos 33 processos instaurados contra mim ao longo destes 16 anos jamais usaram o direito de resposta, aqui generosamente respeitado. Nunca contestaram de p√ļblico o que afirmo. Preferiram - e continuam a preferir - confinar aos autos dos processos tudo que pod√≠amos estar a debater diante da opini√£o p√ļblica. N√£o s√≥ para n√£o permitir a dissemina√ß√£o de informa√ß√Ķes e o exerc√≠cio da dial√©tica da verdade: querem tamb√©m tomar meu tempo e me atazanar para que eu n√£o possa desenvolver o tipo de jornalismo que o Par√° e a Amaz√īnia exigem de n√≥s todos, profissionais da informa√ß√£o, como testemunho fiel da hist√≥ria que estamos vivendo.

Mas por que escrevo tanto sobre o grupo Liberal e bem menos sobre a corporação do deputado federal Jader Barbalho? O grupo RBA está apenas num patamar inferior porque seu principal concorrente conta com a vinculação ao maior grupo de comunicação do Brasil, a Rede Globo de Televisão. O problema é que falta ao Diário do Pará uma imagem de credibilidade que ainda se projeta de - e sobre - O Liberal. Quem analisar o noticiário dos dois jornais não verá essa diferença, ou ao menos não de forma significativa. Mas há uma expectativa melhor em relação ao veículo dos Maiorana porque ele não é explicitamente controlado por um político - e é justamente o político com o maior índice de rejeição no Estado o dono do outro veículo.

Quando disputou pela primeira vez o governo, em 1982, Jader percebeu que poderia vencer a disputa com Oziel Carneiro sem O Liberal, ainda sob o mando de Romulo Maiorana. O apoio explícito do jornal foi ao candidato apontado por Jarbas Passarinho, mas não hostilizou seu adversário (e até o ajudou por trás dos panos). O projeto de poder pessoal de Jader não se consumaria se ele continuasse a depender do grupo Liberal - foi a lição que aprendeu no episódio. Por isso criou seu próprio jornal, que Romulo tolerou por estar convencido de que seria concorrente decorativo (a mesma estratégia que possibilitou sua boa convivência com A Província do Pará).

Quando Romulo morreu e Jader venceu a disputa contra Sahid Xerfan, o candidato de H√©lio Gueiros e dos Maiorana, em 1990, o per√≠odo de toler√Ęncia acabou. Como o Di√°rio ainda era tra√ßo e estava sempre sujeito a reca√≠das politiqueiras nos seus ensaios de profissionaliza√ß√£o, Jader, como pol√≠tico, teve que continuar a pagar - e caro - pela cobertura de O Liberal. Ambos os contendores, por√©m, sabiam que estavam em situa√ß√£o de tr√©gua, n√£o de paz. Continuavam a se armar para as novas batalhas e exigiam fidelidade absoluta aos parceiros. Quem n√£o fosse a favor, estaria contra. E assim seria tratado. O exerc√≠cio do poder continuou a ser plebiscit√°rio no Par√°, uma das raz√Ķes dos sofrimentos que o Estado padece.

O Jornal Pessoal, estando interessado apenas na verdade, ficou na linha de tiro. Como pol√≠tico sagaz, Jader preferiu absorver as cr√≠ticas e apostar na desmemoria coletiva para que as feridas abertas em seu corpo cicatrizassem (e parecem ter mesmo cicatrizado: ele mant√©m um ter√ßo do eleitorado paraense como sua cota cativa de votos, infensa ao poder de convencimento das cr√≠ticas, a lhe garantir brilhantes reelei√ß√Ķes para a C√Ęmara Federal, ainda que tornando temer√°ria a pretens√£o aos cargos majorit√°rios).

J√° os Maiorana se irritam com a revela√ß√£o das manobras e acordos que fazem, em troca de notici√°rio viciado, para impor seus interesses e vontades. Algu√©m j√° viu ou ouviu alguma cr√≠tica - por menor que fosse - √† "casa" e aos seus donos em algum dos ve√≠culos do grupo, qualquer reparo levantando d√ļvida sobre serem eles semideuses? O alcance deste jornal no abalo da credibilidade dos ve√≠culos do grupo √© restrito √† elite, mas √© justamente essa elite que funciona como instrumento de proje√ß√£o da imagem do grupo Liberal sobre a opini√£o p√ļblica, o trunfo que faz a diferen√ßa na contenda com a RBA. Sem o JP, a simula√ß√£o de jornalismo profissional seria muito mais eficaz junto ao segmento da sociedade que √© a caixa de resson√Ęncia dos acontecimentos.

A edição passada deste jornal continha duas matérias sobre essa manipulação, que não podiam deixar de ser publicadas, sob pena de o JP trair a sua razão de ser: permitir o acesso do cidadão às vielas e esquinas do poder, às tricas e futricas dos poderosos, fazendo-os sair da penumbra e dos ambientes fechados, o cenário ideal para seus acordos em causa própria. Uma matéria foi sobre a trama para depor a direção do Hospital de Clínicas Gaspar Viana, aproveitando-se de um fato real, e dando-lhe dimensão exagerada, criando tempestade em copo d’água e assim alcançando o objetivo estabelecido à margem da reportagem. Se a cobertura fosse séria e real a preocupação com os problemas, por que não houve continuidade no acompanhamento da questão?

Cabe a mesma pergunta em rela√ß√£o √† segunda mat√©ria: por que O Liberal n√£o divulgou o relat√≥rio que um espi√£o do governo teria elaborado sobre o plano dos movimentos sociais de fechar pela s√©tima vez o tr√°fego na ferrovia de Caraj√°s, se o "furo" dado pelo jornal se baseou exclusivamente nessa "fonte an√īnima"? A den√ļncia era suficientemente grave para impor responsabilidades ao jornal. Mas O Liberal p√Ķe e disp√Ķe √† vontade no seu notici√°rio, ignorando a opini√£o p√ļblica, se lixando para as regras √©ticas e morais da profiss√£o, que nem mesmo o sindicato da categoria se lembra de cobrar, atropelando a realidade e desprezando os fatos.

Se o saldo da carreira pol√≠tica de mais de 40 anos de Jader Fontenele Barbalho √© negativa, mais negativa do que o balan√ßo das realiza√ß√Ķes do l√≠der maior do regime militar, que o antecedeu, Jarbas Gon√ßalves Passarinho (este, ao menos, com sua imagem pessoal preservada), a contribui√ß√£o negativa do grupo Liberal √© do mesmo tamanho, pelo menos. Com suas evasivas, sua facilidade de dizer e desdizer, sua incapacidade de rever seus atos e admitir seus erros, seus m√©todos coercitivos, sua pretens√£o ao monop√≥lio e ao absolutismo, O Liberal desacreditou a opini√£o p√ļblica. Transformou o cidad√£o numa abstra√ß√£o e o direito numa quimera. √Č realiza√ß√£o demon√≠aca numa regi√£o colonial como a nossa, usurpada do seu maior direito, que √© o de fazer a pr√≥pria hist√≥ria.

O grupo Liberal n√£o perdoa quem se atreve a enfrent√°-lo √†s claras, usando contra eles uma arma mortal: a demonstra√ß√£o da verdade. Por isso, procura punir o atrevido. As a√ß√Ķes c√≠veis de indeniza√ß√£o se revelaram um desses instrumentos. Uma das quatro ajuizadas no f√≥rum de Bel√©m foi o motivo do meu comparecimento, no dia 10, a audi√™ncia realizada na 6¬™ vara c√≠vel. O juiz Mairton Carneiro realizaria o primeiro ato como presidente do feito, que assumira um pouco antes, por redistribui√ß√£o da antiga 4¬™ vara. De pronto, dispensou minhas tr√™s testemunhas e acatou a decis√£o dos autores da a√ß√£o, que, "por conveni√™ncia", se recusaram a entregar os balan√ßos da empresa relativos a 2004 e 2005, prova documental j√° deferida pelo juiz anterior na condu√ß√£o do processo.

Romulo Maiorana J√ļnior e Delta Publicidade cobram de mim indeniza√ß√£o equivalente a 300 sal√°rios m√≠nimos por danos morais que teriam sofrido em conseq√ľ√™ncia do j√° famoso artigo sobre o "rei da quitanda". E mais 300 sal√°rios m√≠nimos pela "perda de capital" que lhes teria sido acarretada pelo mesmo texto jornal√≠stico. Mas se o dano material tem um componente subjetivo, o dano material, como o pr√≥prio nome diz, √© concreto, tang√≠vel. Ainda mais porque assumiu a forma de "perda de capital", como eles pr√≥prios declararam.

S√≥ se poderia apurar esse dano comparando as demonstra√ß√Ķes financeiras relativas ao exerc√≠cio anterior ao da publica√ß√£o do artigo com as do ano em que ele saiu neste jornal. Ainda n√£o seria o bastante para me fazer incorrer em repara√ß√£o: faltaria estabelecer objetivamente o nexo causal entre a mat√©ria jornal√≠stica e a perda de capital. Sem essa rela√ß√£o direta, n√£o se pode falar em il√≠cito a ser indenizado. Mas a discuss√£o de m√©rito jur√≠dico s√≥ pode ser estabelecida sobre uma base factual. Os autores n√£o se deram ao trabalho de fazer qualquer demonstra√ß√£o. Ao demandado por essa impertinente a√ß√£o √© que coube dar conta da tarefa. Mas nem isso eles est√£o dispostos a permitir, como se fossem os tutores da justi√ßa, os donos das decis√Ķes dos magistrados.

Perante o juiz da 6¬™ vara o patrono de Romulo Maiorana J√ļnior e Delta Publicidade declarou que estava disposto a retirar o pedido de indeniza√ß√£o por dano material para n√£o ter que entregar os balan√ßos. Fez essa declara√ß√£o mesmo j√° caracterizada sua desobedi√™ncia √† ordem judicial, expedida em 2006 e no ano passado, com a puni√ß√£o correspondente. Os donos da comunica√ß√£o no Par√° se julgam al√©m da tutela jurisdicional, como cidad√£os acima de qualquer suspeita. Por que os Maiorana est√£o dispostos a confrontar a justi√ßa para n√£o permitir o acesso t√©cnico √†s suas contas, tendo o direito de contraditar o que for dito sobre elas?

Os advogados dos Maiorana primam pela agressividade contra mim, em qualquer situa√ß√£o, mesmo quando apare√ßo nos processos como testemunha. Foi o que aconteceu na a√ß√£o da TV Liberal contra a TV Marajoara (embora, na verdade, para chegar √† Record), a prop√≥sito do conv√™nio da emissora com a Funda√ß√£o de Telecomunica√ß√Ķes do Par√° e do contrato da ORM Air com o governo do Estado. A Record pediu o meu depoimento, sem fazer qualquer consulta pr√©via a mim. Como do meu dever, apareci para depor na 7¬™ vara c√≠vel, no dia 18 de agosto. Durante meu depoimento, a prop√≥sito da a√ß√£o popular ajuizada originalmente pelo deputado federal Vic Pires Franco (e depois por ele abandonada, quando voltou a se entender com Romulo Maiorana J√ļnior) contra o "conv√™nio", disse que a decis√£o da sempre pol√™mica ju√≠za Rosileide Filomeno foi pela legalidade da rela√ß√£o, mas que "existe recurso pendente no tribunal inclusive por parte do Minist√©rio P√ļblico". O procurador do grupo Liberal, Jorge Borba, me contraditou com veem√™ncia, afirmando para a ju√≠za Rosana Canelas Bastos que o MP n√£o recorrera e que eu estava prestando falso testemunho, tornando-me pass√≠vel de processo. O advogado at√© sugeriu que a ju√≠za entrasse imediatamente em contato com a inst√Ęncia jurisdicional pela qual se processa a a√ß√£o civil p√ļblica e confirmasse a informa√ß√£o que estava prestando. Para n√£o tumultuar a audi√™ncia, que j√° demorava muito, deixei passar a acusa√ß√£o.

No dia seguinte, liguei para o caus√≠dico e lhe mostrei que ele √© que estava errado, dando-lhe todas as informa√ß√Ķes sobre o recurso. Pedi-lhe que, como profissional do direito, checasse essas informa√ß√Ķes e, confirmando o que lhe disse, retificasse sua falsa declara√ß√£o em ju√≠zo. Borba, por√©m, n√£o tomou qualquer iniciativa, mesmo sabendo que estava errado. Decidi ent√£o oficiar √† ju√≠za e anexar as provas que desmentiam as afirmativas feitas pelo patrono dos Maiorana.

O recurso de apela√ß√£o do representante do Minist√©rio P√ļblico, promotor Nelson Pereira Medrado, datado de 23 de novembro de 2007, foi protocolado na secretaria do f√≥rum c√≠vel do Tribunal de Justi√ßa do Estado, sob n√ļmero 20071075764-0, √†s 11:18:43 do dia 26/11/2007, conforme o registro feito na folha de rosto da pe√ßa. A ju√≠za Rosileide Filomeno, titular da 3¬™ Vara da Fazenda P√ļblica, recebeu a apela√ß√£o do MP, juntamente com a do autor da a√ß√£o popular, Domingos Concei√ß√£o, nos efeitos devolutivo e suspensivo, em 14 de dezembro do ano passado. A inst√Ęncia superior ainda n√£o deliberou sobre a quest√£o.

Rea√ß√£o do advogado: pediu o desentranhamento dos autos do meu of√≠cio, que se baseara no direito de peti√ß√£o de qualquer cidad√£o (ainda mais leg√≠timo por parte de quem foi testemunha no processo) porque eu n√£o me manifestei atrav√©s de advogado. Prendeu-se √† forma, deixando de lado o conte√ļdo. Procedimento rotineiro na "casa".

As est√≥rias que O Liberal tem contado nos anos recentes s√£o quase sempre da carochinha, mas est√£o muito longe de serem infantis. Por isso, o Jornal Pessoal lhes d√° tanta aten√ß√£o, compromissado que est√° com a hist√≥ria real de homens de carne e osso, acreditando que eles poder√£o assumir sua hist√≥ria se tiverem as informa√ß√Ķes verdadeiras e se forem alertados para as tentativas de fraud√°-los, como as que o grupo Liberal constantemente empreende. √Ä maneira da legend√°ria l√≠der espanhola Dolores Ibarruri, La Pasionaria, continuaremos a dizer: por aqui essa mitologia n√£o passar√°. Ainda que tenhamos que pagar um pre√ßo descaradamente alto e iniquamente injusto, como o que nos tem sido cobrado, usando o poder judici√°rio como intermedi√°rio ou testa-de-ferro. Atado como Prometeu, o jornalismo renascer√° como F√™nix, mesmo que seja com outro nome, em outra publica√ß√£o. Porque o Par√° merece que seja assim.

----------

L√ļcio Fl√°vio Pinto √© o editor do Jornal Pessoal, de Bel√©m, e autor, entre outros,¬†de O jornalismo na linha de tiro¬†(2006) e Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paix√£o amaz√īnica (2007).



Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

  •